Um outro, já não sei em que endereço, terminou a leitura de 2666 a gritar: “Bolaño, meu cabrão, meu filho da puta, meu génio!” Hum…
Pela minha parte o que primeiro me salta às narinas e que me leva a coçar o nariz é ir comprovando que aquilo é romance de macho e que toda a histérica testosterona – que também a há – que por aí se verteu pelos blogs e pelas revistas da especialidade literária não fez mais do que enaltecer o falo e respectivo séquito. Uniram-se os homens para elogiar um dos seus.
Eu sei que o livro tem mil e muitas páginas e que as poucas que até agora li nem por isso podem ser representativas do todo. Admito que posso estar a incorrer num precipitado juízo de valor, muito incendiado pelo que fui lendo e pelo asco que muitas das coisas que li me provocaram e que, naturalmente, há ainda muito caminho para percorrer e muito ainda para assimilar… mas, por muito que tente, não consigo deixar de, à medida que avanço no livro, intuir porque motivo teve 2666 tal efeito entre os rapazes. O que espero é que o final, se lá chegar, me faça engolir todas estas palavras e prestar a devida vénia ao autor, mas não sei.
Primeira coisa que me irrita: a história traz-me reminiscências de um “O Livro das Ilusões” de Paul Auster.
Segunda coisa que me irrita, e solenemente: existe uma mulher entre as quatro personagens principais. Todavia, ainda que mulher educada, parece desprovida de energia, como se nada no mundo fosse capaz de a animar. Aparentemente ao mesmo nível dos homens mas subtilmente diminuída pelas supra-capacidades destes. Existe como potenciador de tensão entre os homens que, aparentemente, por ela, se comportam como idiotas sem nunca, contudo, quebrarem, entre eles, o famigerado acordo de cavalheiros.
Talvez mais para a frente a senhora se rebele e deixe de ser tanto figura decorativa com mamas mas, para já, ainda não me convenceu. Prefiro mil vezes uma Lisbeth Salander de Stieg Larssson que, mesmo depois de indescritivelmente violada se ergueu para dar luta do que esta Norton em versão soft porno intelectual.
Ainda o que mais me irrita é perceber que os “rapazes”, no intimo, gostavam de ser assim como eles e que, pior, são de certa forma assim. Um grupinho não muito diferente dos grupinhos de mulheres que tanto criticam e a quem tanto olham com nojento paternalismo e escárnio.
Tenho pena que a leitura de 2666 esteja tão tingida por este meu surto de inesperado feminismo mas, quanto a isso, nada posso fazer. Ele manifestar-se-ia tivesse eu lido blogs e revistas ou não.
Ademais e numa nota que nem por isso tem a ver com Bolaño, tanto desagrado com o prémio Nobel da Literatura porquê? Porque é uma venerável desconhecida – pelo menos para nós, lusos – ou porque, sendo mulher, destronou Philip Roth e outros que tais? Ter um apêndice ao dependuro entre as pernas potência o talento? Sempre gostava de ver onde estaria tanto homem se as mulheres não os tivessem parido.