Ingredientes da confecção da vida
Ainda não sei se gosto do som destes senhores. Para já gosto desta música e, sobretudo, do tom poético-decadente do videoclip. Os Franz Ferdinand apareceram-me sob a forma de livro e acho que, quando o comprei, nada tinha ouvido sobre eles e nada tinha ouvido deles.
O livro também é atípico. Reúne uma colecção de crónicas gastronómicas escritas pelo vocalista da banda – Alex Kapranos – para o Guardian. A tourné mundial que efectuaram foi a toalha de mesa sobre a qual assimilou – e provou – a experiência para tal.
Comprei o livro porque isto de nos apaixonarmos por uma pessoa que tem jeito para a cozinha e em cuja companhia uma simples refeição é toda uma experiência de amor e partilha, acirrou a minha curiosidade para o que fica para além do prato sobre a mesa. E descobri um mundo novo. Feito de história, de emoções e paixão. De sonhos que se constroem e de experiências que se proporcionam. Às vezes nem é tanto o que se come mas o ambiente em redor da comida aquilo que mais importa e que, mais tarde, se recorda e recomenda. Tenho aprendido algumas coisas nesta minha saga pelo que os outros escrevem sobre a comida mas tenho, acima de tudo, aprendido a respeitar todo o trabalho que antecede o chegar do prato à mesa. Nunca tinha ligado muito a isso e agora é uma coisa que, sim, faz parte de mim. Eis o que o amor nos acrescenta. E isto é apenas uma pequena parte. [Beijo imenso para ti, amor].
Quanto às crónicas de Alex Kapranos… são engraçadas. Falam de sítios no mundo a que nunca fui e de comidas que nunca provei e de modos de viver que desconheço. Fala também de sonhos, os dele, e de como os desvios que teve de tomar e os atalhos por onde escorregou nunca o impediram de ver o “mais longe” e de, no fim, o terem tornado mais forte.
Quanto à música… ainda estou a decidir.
Rewind

Faço o percurso ao contrário. Os livros que, de há um mês a esta parte, fazem parte do meu quotidiano – numa cacofonia de palavras e visões do mundo – regressam agora a casa.
É já muita feira no pelo

O Pedro Mexia esteve hoje na Feira a dar uma sessão de autógrafos. Não achámos bem. Não achámos bem todas as barracas terem sessão de autógrafos menos nós. Vai daí lembrámo-nos de que talvez, dadas as circunstâncias, já que se diz por aí que o senhor é um ganda boi; nós bem que podíamos ter a mula do Sancho Pança a autografar o Don Quijote.
Enquanto a chuva não pára




Não fosse o telemóvel para te mandar mensagens e tirar fotografias, já me tinha transformado numa traça e comido os livros todos.
Livros à chuva


Choveu copiosamente a maior parte do dia. A humidade infiltrou-se nos livros e eles, à vez, como que movidos pelo espirro colectivo das personagens ou dos factos, foram caindo das prateleiras, numa manifestação de afectado desagrado.
Foi-se-me entranhando, no avançar das horas, uma sensação de frio e tristeza. Um desconforto físico aliado a um protesto da alma contra o absoluto desperdício a que, não poucas vezes, somos votados. Ali estive todo o dia. Eu e os meus livros em castelhano. Pobre acervo de uma guardiã à força.
Caiu a noite quando ainda devia ser dia. Um vento de Inverno percorreu o Verão. Não há cultura que resista ao lamento da natureza.
Valeu-me, mais uma vez, o telemóvel como bloco de notas. Obrigada, meu amor.
Arte comparada

Diabólica mania de achar que os outros são melhores do que eu. Olho, olho, olho e vejo que não.
Foto: Instalação, manifestação, street art ou poluição na Rua de Sampaio Bruno, no Porto.
Save the last dance for me
Tenho muitas imagens felizes de nós. Momentos. Às vezes pequenos nadas. Silêncios de doce conforto. Risos de imensa alegria. Cumplicidades. Tenho saudades tuas. Apetecia-me dançar contigo outra vez, de pés descalços, na cozinha. O meu corpo em ritmo desajeitado nos teus braços e rodar à vontade da tua mão e no sorriso do teu olhar.
Os cromos da feira


O Junho de hoje trazia lembranças de Outubro na cauda do vento. O frio e a chuva foram a história paralela àquela que passei o dia a ler: “Elegia para um Americano” de Siri Hustvedt, a mulher de Paul Auster. Talvez não devesse apresenta-la assim – vale por si só – mas é impossível não negar a influência do marido na sua escrita. A voz é a dela mas a cadência do texto denunciam os muitos anos de convivência e a forma como o pensamento de um se entranha no do outro.
É o terceiro livro que leio dela e, até ao momento, o primeiro a que não tenho assim muito o que apontar. Trata de dois temas que me são caros: os mistérios insondáveis da mente e os da vida que sobra à morte. E se bem que não procure respostas, à procura de respostas anda a autora; procuro talvez reconhecer nas conclusões a que vai chegando um pouco das minhas.
A verdade, contudo, é que a conclusão a que eu chego é que não cheguei ainda a conclusão nenhuma. O “fim” ainda me existe sem expressão e como acontece com as personagens, tudo tem ainda a dimensão de um sonho. A impressão de uma coisa vaga, como poeira levantada que ainda não assentou. Uma sensação de deslocamento no tempo e no espaço, como se houvesse uma impressão de mim que ainda não se alinhou comigo. Que ainda não transferiu para mim o todo da sua experiência. Não sei. Não sei se alguma vez saberei.
Para além do dissecar da experiência dos outros, tropecei no Gerónimo Stilton sentado numa mesa a dar autógrafos. E mais tarde encheu-se o meu campo de visão com um bando de insubordinados escuteiros. E sorri, porque o mundo em que vivem está longe, ainda, de muita coisa. Ou não.
O Safari dos livros ou a apologia do tédio

A algazarra infantil animou a manhã e à tarrrrde, para o tempo passar, o R. e eu tentámos delinear uma forma de capturar Leyões sem sermos atacados pela aldeia em peso. Concluímos que quando eles estão distraídos a vasculhar os sacos de quem por lá passa e activa o alarme é fácil fazer desaparecer o Leyão isolado que, absorto, fuma fora dos limites da aldeia.
Num instante

Hoje, ao atravessar a ponte, contigo no pensamento, no momento em que inspirando, mantendo-me viva, me reconheci mais forte por te amar.
O Caderno de Saramago

Saramago, velho, velhinho, lá foi, à tarde, escrever o nome nos livros. Os que lêem e gostam, os que nem por isso se interessam e os que entredentes lhe chamam “esse gajo comunista” lá estavam, na fila, à espera de vez.
Levei máquina para lhe tirar uma fotografia à socapa mas depois senti uma estranha urgência de o deixar em paz.
P.S – A foto que não tirei aqui. Velho, velhinho…
A barraca dos livros

E a Feira continua. Faço uma adenda ao entusiasmo do post anterior, porque isto de a Feira regressar aos Aliados, tendo em conta que a Avenida dos Aliados de Siza Vieira e Souto Moura é um pouco estéril – árvores nem vê-las -, tem sido uma experiência infernal. Muito sol, um calor insuportável e a sensação de que, para além de estarmos a pagar pelos pecados que cometemos noutra vida estamos já a penar por aqueles que ainda não cometemos nesta. Ninguém merece. Ainda têm de me explicar qual é a piada das saunas.
Apesar do calor tudo decorre sem problemas. A Aldeia da Leya é fixe porque tem música mas os Leyões podiam não professar a religião do “vira o disco e toca o mesmo”. O Saramago vai lá estar amanhã, coitado. Esperemos que não torre. Não lhe vou pedir autógrafo porque da última vez que o fiz, logo em três livros, esqueci-me deles no autocarro e nunca mais os vi.
Livros e uma barraca
Depois de alguns anos de deserção regresso à Feira do Livro como “guardiã da barraca”. E não, não é tão mau quanto isso e embora eu tenha resmungado um pouco quando me propuseram a ideia, a verdade é que trocar ar condicionado por puro ar de escape acabou, no fim, por não ser uma decisão muito difícil de tomar. Não se está mal ali à sombra do cavalo de D. Pedro V e há que reconhecer que todo o evento devolve vida ao coração da cidade. Isso é bom de ver e melhor de se fazer parte.
Estou ao lado da “Aldeia da Leya” – onde habitam os Leyões -, daí que a escolha musical para a colagem de imagens que fiz hoje com o telemóvel e que, de alguma forma, documentam algumas das operações de montagem da Feira, não seja de todo despropositada. Têm os meus colegas de livros tal operação logística montada que, ou me aparece um disco voador ou sai lá do meio, em debandada, uma manada de elefantes.
Em resumo: muitos livros, um caos inicial apocalíptico que, pacientemente, foi substituído pela ordem e uma escada em queda livre que me podia ter partido a cabeça. Mas não partiu.
Eu e os mitos desfeitos
A voz do Paul Auster não é a voz do Paul Auster que eu ouço quando leio os livros do Paul Auster.
Ó FNAC, ó FNAC! Badajoz à vista!
As práticas do bom senso, do profissionalismo e, sobretudo, do respeito pelo trabalho dos outros levam-me a reprovar esta atitude… mas, que às vezes dá vontade, lá isso dá. Em contrapartida… descolar etiquetas de livros pode ser, também, encarado como um exercício de yoga. Se estivermos com o mood certo… é zen.
My Netherlands #14

Nenhum será, nunca, tão bonito como o nosso, mas todos servirão o propósito de nos alumiar o caminho por dentro da alma. Tu és o meu.
My Netherlands #13

É só um mar, meu amor. O mesmo mar que nos envolveu num abraço apertado, nesse momento sem tempo, imenso, suave, em que os teus lábios tocaram os meus e a vida se transformou num “nós” de olhos marujos e coração à bolina. É só um mar mas a praia de onde o quero ver é aquela em cuja areia deixas, todos os dias, a marca dos teus passos.






