Bater na porta ao lado

Não é caso para dizer ano novo blog novo, mas há coisas novas a experimentar e vamos ali ao lado ver o que se pode fazer e aprender. Na verdade… deixei-me levar pela promessa de fotografias grandes…

Water shows the hidden heart

Sweet december skies

Saudades do mar que só contigo é vida.

– Das coisas melhores que me aconteceram na vida foi ter nascido numa aldeia da Beira Baixa, e aí ter passado toda a minha infância. Como sou filho, neto e bisneto de camponeses, em casa havia apenas um só livro, uma Vida de Santos que ninguém lia, pois as poucas letras que alguns homens da família haviam aprendido tinham-nas esquecido quase todas. Meteram-me na escola aos seis anos de idade, aprendia facilmente, mas nunca li o tal alfarrábio, pois o meu mundo também não era o das letras, mas o dos pássaros e do vento, o das águas e dos amieiros. Essa era a “poesia” que me chegava, mas havia outra, ela vinha na voz de minha mãe, e nos seus intermináveis romances, cuja lembrança me aquece ainda. (…)

Eugénio de Andrade

Mirando o cimo da serra

Saudades até do caminho para ti.

A oposição

A cliente queria um livro para oferecer a uma criança, filho de um casal amigo. Fiz o périplo das novidades do infantil mas nada agradou à senhora. Ou tinha muito texto, ou tinha pouco texto, ou era em verso ou era em nada. Já com os nervos em franja, até porque tinha de ir jantar e a mulher nunca mais se decidia, tirei, por acaso, um livro do Manuel Alegre da prateleira. Pareceu-me um livro engraçado, abordava a questão da destruição do planeta e procurava sensibilizar a criançada para os cuidados a ter com ele. Sugeri-o, apresentando os meus argumentos. A senhora pegou nele, mirou-o de alto abaixo, desfolhou-o, apreciou as ilustrações e, quando eu achava que o assunto estava arrumado e que era aquele que, finalmente, ia levar, devolveu-mo dizendo:

- Não pode ser este. A criança pertence a uma família que é do PSD.

De passeio pela cidade

Contemporânea. With a smirk.

A long time ago foi-me permitida uma visita às entranhas da rede de metro do Porto quando as linhas e estações ainda estavam a ser construídas. Dessa visita recordo ainda o assombro que me causou o facto de o homem ser capaz de tão grandiosos empreendimentos e de como é injusto o reconhecimento que não se presta aos obreiros e que fica só na pessoa do arquitecto ou do engenheiro.
Dos homens que viveram meses a fio com os pés enfiados na lama e que talharam a pedra não reza a história mas é sobre o seu trabalho que o quotidiano se cumpre.

Do baú

Aldeia da Pena | Penacova 1994

O Outono em Praga

Cova da Beira

Apaixonada pelo meu novo photoshop…

Caim, caim, beu beu

Até merece ser lido.

Toda a espera do mundo




now that you’re back



i can breath again

Mas o que interessa, meu amor, (e talvez o motivo para tanto rambling) é que daqui a poucas horas inicias a viagem de regresso e nunca, como neste momento, já tão perto de te ter aqui, o meu coração tanto se embrulhou. Para lá deixei-te ir sozinha mas para cá como queria tanto vir contigo.

Primeiras impressões de Bolaño

Um outro, já não sei em que endereço, terminou a leitura de 2666 a gritar: “Bolaño, meu cabrão, meu filho da puta, meu génio!” Hum…

Pela minha parte o que primeiro me salta às narinas e que me leva a coçar o nariz é ir comprovando que aquilo é romance de macho e que toda a histérica testosterona – que também a há – que por aí se verteu pelos blogs e pelas revistas da especialidade literária não fez mais do que enaltecer o falo e respectivo séquito. Uniram-se os homens para elogiar um dos seus.

Eu sei que o livro tem mil e muitas páginas e que as poucas que até agora li nem por isso podem ser representativas do todo. Admito que posso estar a incorrer num precipitado juízo de valor, muito incendiado pelo que fui lendo e pelo asco que muitas das coisas que li me provocaram e que, naturalmente, há ainda muito caminho para percorrer e muito ainda para assimilar… mas, por muito que tente, não consigo deixar de, à medida que avanço no livro, intuir porque motivo teve 2666 tal efeito entre os rapazes. O que espero é que o final, se lá chegar, me faça engolir todas estas palavras e prestar a devida vénia ao autor, mas não sei.

Primeira coisa que me irrita: a história traz-me reminiscências de um “O Livro das Ilusões” de Paul Auster.

Segunda coisa que me irrita, e solenemente: existe uma mulher entre as quatro personagens principais. Todavia, ainda que mulher educada, parece desprovida de energia, como se nada no mundo fosse capaz de a animar. Aparentemente ao mesmo nível dos homens mas subtilmente diminuída pelas supra-capacidades destes. Existe como potenciador de tensão entre os homens que, aparentemente, por ela, se comportam como idiotas sem nunca, contudo, quebrarem, entre eles, o famigerado acordo de cavalheiros.

Talvez mais para a frente a senhora se rebele e deixe de ser tanto figura decorativa com mamas mas, para já, ainda não me convenceu. Prefiro mil vezes uma Lisbeth Salander de Stieg Larssson que, mesmo depois de indescritivelmente violada se ergueu para dar luta do que esta Norton em versão soft porno intelectual.

Ainda o que mais me irrita é perceber que os “rapazes”, no intimo, gostavam de ser assim como eles e que, pior, são de certa forma assim. Um grupinho não muito diferente dos grupinhos de mulheres que tanto criticam e a quem tanto olham com nojento paternalismo e escárnio.

Tenho pena que a leitura de 2666 esteja tão tingida por este meu surto de inesperado feminismo mas, quanto a isso, nada posso fazer. Ele manifestar-se-ia tivesse eu lido blogs e revistas ou não.

Ademais e numa nota que nem por isso tem a ver com Bolaño, tanto desagrado com o prémio Nobel da Literatura porquê? Porque é uma venerável desconhecida – pelo menos para nós, lusos – ou porque, sendo mulher, destronou Philip Roth e outros que tais? Ter um apêndice ao dependuro entre as pernas potência o talento? Sempre gostava de ver onde estaria tanto homem se as mulheres não os tivessem parido.

  

E o Porto voltou a eleger os imbecis…

Ser dona de casa deve ser deprimente

Que outra coisa se pode achar quando se liga a televisão na SIC e vemos a Fátima e o Cláudio Ramos a dissertar sobre o caso de uma mulher que perdeu os dentes? Pior do que a senhora parecer estar ali sob coação – como se os filhos estivessem reféns da equipa de produção nos bastidores e só fossem libertados após a sua humilhação em público – só mesmo o Cláudio Ramos num remake do Querido Mudei a Casa. Neste caso, Querido Mudei os Dentes.

É caso para ir lá abaixo e pedir um café com cheirinho…

Uma das muitas razões porque o livro nunca vai morrer

Ou como um livreiro se transforma numa criança que, acabada de acordar, descobre que deixaram uma caixa repleta de tesouros aos pés da cama.

Uma única vontade. Deitar-me e dormir um sono longo e profundo. Acordar somente quanto os teus olhos fossem a primeira coisa que visse e olhar-te. Não olhar de ti o que já não és nem oferecer-te o que já não sou. Olhar-te e sorrir no calor do teu beijo aquilo em que o caminho nos transformou. Amar-te, mulher, com a dor do que o tempo nos cravou. Percorrer com a ponta dos dedos as tatuagens esculpidas no que endureceu na tua pele e revelar-te as minhas cicatrizes. Não esconder de ti nem o medo nem a ternura. Não te ignorar nesse reverso do riso. Dar-te a mão, agarrar a tua, e descansar no teu peito. Segurar o teu corpo nos meus braços e sentir, por fim, que o tempo não é uma espiral que nos afunda mas apenas a grande viagem que podemos continuar a fazer juntas.

Vintage Oporto


O prenuncio das águas