Entries from March 2008

A levedura dos dias

March 31, 2008 · 4 Comments

Cenário: Uma livraria no final de expediente. 

Cliente aproxima-se do balcão onde estou eu e a Carla B. Pergunta:

- Onde é que posso encontrar um metro articulado?

Eu aponto na direcção da Papelaria e digo:

- Ali os colegas podem ajuda-lo.

Carla B., dá uma gargalhada, bate-me no braço e interpela o cliente:

- Deixe lá que ela está a engana-lo. É para ali! – e aponta na direcção da porta de saída. O semblante do cliente denuncia que ele não está a perceber patavina da conversa. Eu não entendo ao que se refere Carla B. e insisto:

- Não, na Papelaria pode encontrar um metro articulado.

Carla B. tem um ataque de riso e afasta-se, deixando atrás de si um rasto de gargalhadas. O cliente, um pouco desconcertado, olha para uma e para a outra. Agradece e segue na direcção da Papelaria. A Carla B., rindo ainda, aproxima-se de mim.

- Que te deu? – pergunto.

- Pensei que ele tinha perguntado pela saída para o metro – diz e continua a rir, a rir, a rir, a rir, a rir. Olho em frente. O cliente também ri, enquanto conta a peripécia à pessoa que o acompanhava. Medito. A Carla B. acalma e para de rir. Deito-lhe um olhar de viés. Pergunto:

- O que é um metro articulado?

A Carla B. tem outro ataque de riso. Afasta-se, deixando atrás de si um rasto de gargalhadas.

Fiquei sem resposta. 

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Horas antes, ao falar sobre séries da década de 80 e 90

Carla B.: Sim, sim, lembro-me do “Crime disse ela”, da Agatha Christie.

Eu: Da Agatha Christie, huh?

Carla B.: Sim, então?

Eu: E do Poirot do Conan Doyle, lembras-te?

Carla B.: Sim… hum… huh?!?

Categories: dos dias

Parabens, amor meu

March 31, 2008 · 1 Comment

Às vezes o pensamento vagueia-me pela suave mecânica de um gesto teu, pelo enquadramento perfeito do teu sorriso, a inebriante narrativa da tua expressão, a memória do teu cheiro, a vontade da tua pele.

Às vezes é o teu riso que me acompanha pelo quieto inquieto das horas e é a tua mão que agarro e onde entrelaço os dedos para não me perder e consumir. É o sossego do teu abraço, o conforto de teu colo que invoco para saber, ainda, o que sou, onde estou, ao que ando e onde vou. Contigo. És o chão debaixo dos meus pés e o céu imenso onde ganho asas para voar.

És a minha paz, a ternura que ilumina as escuras grutas do meu ser, o sol que me aquece, a doçura que me constrói, unifica, me faz mulher. Para mim és tudo o mais que as palavras não conseguem expressar e que só os gestos, em vã tentativa, almejam fazer-te sentir. Amo-te. Obrigada.

Categories: my one and only

Good story, huh?

March 30, 2008 · Leave a Comment

Categories: artes

do Lat. mediocre

March 28, 2008 · 1 Comment

Não sei porque ainda me espanta a mediocridade. Se conseguindo, muitas vezes, sentir-lhe o cheiro na cauda do vento e se a ela assisto no quotidiano pejado dos tentáculos da tacanhez, não entendo porque ainda se me revolvem as entranhas quando, da boca das mesmas personagens, saem as alarvidades do costume.

Na verdade, talvez já não me espante. Talvez o espanto tenha dado lugar ao susto. Ao medo. Ao receio oculto, não escutado, de que, por força do hábito, também em mim se instale o medíocre e eu acabe por não ser melhor do que me rodeia.

 

Categories: alegoria da caverna

… de uma noite de verão

March 28, 2008 · Leave a Comment

Numa parte de mim, minha mãe, há-de ser sempre verão. Noite de manto de estrelas cadentes que refrescava o calor de Agosto. Hei-de ser sempre jovem e tu serás sempre tu. O teu riso há-de ecoar, muito traquinas e meio envergonhado, rindo da desgraça alheia. Daquela pequena desgraça que soltou as velas do riso e o elevou ao universo. Hei-de lá estar, sempre, contigo, batendo o pé ao ritmo da música, contente por saber que te agradava. Há-de ser meu, sempre, esse sorriso. Como meu será, sempre, o eco dos teus passos no regresso a casa e o riso, sempre o riso, que ainda te atacava ao dobrar da esquina.

Categories: heart and soul

Nenhum homem é uma ilha

March 27, 2008 · Leave a Comment

É-me difícil encontrar um princípio. Maior parte do tempo não me sinto uma linha de lógico pensamento, mas uma sucessão de tópicos sem ligação aparente entre si. Se Vasco da Gama me descobrisse, desenharia o meu mapa replecto de ilhas. Nenhum continente se forma delas. Nenhuma ponte as une. Existem separadas e, grosso modo, de costas voltadas umas para as outras.

Categories: alegoria da caverna

Newton tinha razão

March 27, 2008 · 3 Comments

 O acaso foi uma lei programada para dar certo na hora exacta.

Categories: my one and only

Contigo, meu amor, quero time after time.

March 20, 2008 · 1 Comment

You will find me.

Categories: my one and only

Dia P.

March 19, 2008 · Leave a Comment

 Em muitas coisas nunca fomos, nem somos, iguais. Se existe uma definição científica para a disfunção familiar, nós fomos, sem sombra de dúvida, a prova viva de que a teoria tinha aplicação prática. Mas, ainda assim, salvaguardando os devidos danos, sobrevivemos.  

As datas nunca nos significaram muito. Tirando alguma questão de que o Natal se fizesse como mandava o figurino e as festas da aldeia onde, durante muitos anos, se fez questão de estar, tudo o resto eram apenas dias que se cumpriam no calendário. Aniversários e datas disto e daquilo nunca tiveram especial menção no curso normal e desordenado das nossas horas e só mais tarde, quando longe, os comecei a assinalar e a lembrar.  

Hoje é o dia do pai. Em suma, um dia como outro qualquer. Podia escrever muito e quase nada sobre o meu. Na verdade sempre falei muito pouco sobre ele. Nunca houve muito a contar, mau grado haver muito para dizer. No que lhe diz respeito, neste momento, como em muitos outros, ocorre-me pensar – e sentir – que o amor resiste no mais árido dos solos e que nem a mais devastadora tempestade é capaz de o quebrar, mesmo que muito o vergue. Há viveres de que não se faz regra e, apesar de o conjunto da nossa vida não ser, de longe, o mais luminoso, no fim foi sempre o amor que resistiu, foi sempre o amor que nos fez a ponte entre um dia e outro e foi sempre o amor que colou os pedaços rasgados da nossa existência. 

Amanhã o meu pai faz 67 anos e este ano, porque mais nenhum houve assim, pauso com outro vagar sobre a data. E sobra-me o silêncio. O silêncio que, por causa de tudo, sempre me foi o bem mais precioso. O silêncio do olhar que já não acusa. O silêncio das palavras, que cruas, já não se disparam. Chegou o tempo de que o avisávamos mas, por amor, sempre isso a que chamamos de amor; continuamos. Ali. No sempre dos dias que já sabemos serem incertos e antes dessa curva no caminho que não sabemos o que encerra.  

Pauso sobre um homem cuja imagem tive de construir para que não se despedaçasse. Sobre o entendimento que dele alcancei, sobre essa revolta e desilusão que tanto lhe tolheu o espírito e sobre a fraqueza que tentou vencer mas não conseguiu. Humano, apesar de tudo. Apesar de tudo.  

Há toda uma reconciliação que não está feita mas que será feita. Não agora, mas será. Um perdão incondicional que talvez nunca venha a ser decretado mas que, independentemente da forma, será perdão. Uma última concessão de paz. Um esvaziar o coração de tudo o que ainda lhe sabe a fel. Um dia. Não interessa quando.  

Pauso ainda sobre o dia e sobre o homem com a tristeza de saber que, se não tivesse sido assim, teria sido, para mim e para o meu irmão, o melhor pai do mundo. Dissemos-lho. Acho que não acreditou.

Depois já não valia a pena.

Categories: do afecto

M de m

March 18, 2008 · Leave a Comment

Há frases que se repetem no mesmo tom de espanto, meio atordoado, de quem acorda a meia da noite sem saber, ao certo, onde está. Há um retorno sem aviso desse imediato da constatação de um facto que nenhuma margem deixa para dúvidas. Acontece-me não como eu esperava que acontecesse – sabia lá eu o que esperava – mas de forma abruptamente cruel. Peremptória.

Não importa onde, não se alinha com o curso do pensamento, não surge na cauda de uma ideia, uma sugestão, um lugar comum. É como uma descarga de energia, um batimento em falso do coração, uma palpitação, um súbito perder das referências espacio-temporais. Pisco os olhos e ainda estás. Pisco os olhos e já não és.

Há imagens nítidas que me correm por detrás dos olhos e que, ao mesmo tempo que tento não invocar, procuro, para lhe beber os pormenores. Eu não sei como se faz isto. Não sei como evitar a súbita comissura dos lábios, a inesperada rudez da fronte, o olhar que ora se perde ora se acha zangado. És um retalho de ínfimas partículas, cravado, sem ordem, por toda a extensão da alma e eu não sei, não consigo, tornar-te inteira.

Categories: heart and soul

A importância de se chamar Leitura

March 13, 2008 · Leave a Comment

Há lugares que são para sempre e pessoas que, mais do que marcarem um tempo, deixam a sua marca em nós. Lugares a que nos unimos com delicado ponto de bainha e a que regressamos como se o ontem tivesse sido ainda agora. Não há muitos lugares assim em mim. São poucos. Mas neles, sou.

Não foram más todas as minhas experiências de trabalho anteriores e todas elas, a seu modo, me acrescentaram conteúdo mas, enriquecimento palpável e notório, crescimento e consciência de que tal acontecia, apenas aqui. Antes de ser Books and Living mas já no advento daquilo que não tornaria a ser. Reinventou-se e isso também não está mal.

Sabia alguma coisa de livros, sempre soube, mas o que sabia, ainda assim, era muito pouco. Quase nada. Mesmo nada. Tudo o resto, esse tudo e esse todo que me faltava aprender, compreender, sentir e viver haveria de me surgir no caminho, pejado de atalhos e lugares desconhecidos, das minhas conversas com o Sérgio. O mesmo Sérgio, para cujo feitio atravessado me tinham alertado e que, no fim, foi, de todos, o mais afável dos colegas e, neste mundo dos livros, o único professor a quem reconheço mérito e a quem faço as minhas vénias.

Foi com ele que aprendi a dar valor à mais obtusa e obscura editora, a dar valor ao mais improvável dos autores e a reconhecer – entender em toda a sua plenitude – que um livro pode carregar nele todo o peso da Humanidade. Que uma livraria pode encerrar nela toda a Humanidade e que esse gesto, aparentemente inócuo, da venda de um livro é bem mais do que uma transacção comercial. É conhecimento que muda de mãos, é descoberta que se possibilita, são vidas que se podem mudar. Assim, com toda a poesia que se lhe quiser juntar.  

Não foi sob a sua batuta que orientei as minhas leituras noutras direcções, mas foi, sem dúvida, instigada pelas nossas conversas e pelas perguntas que sempre obtiveram resposta que me atrevi por outras letras. Continuo no princípio do muito que há para ler, entender e assimilar mas o “ser” que sou hoje não tem comparação com o “eu” A.L. Antes da Livraria. Aquela.  

O Sérgio não era a única personagem da história. Para mim a Leitura era uma história. Um livro vivo que desfolhava diariamente, o filme que gostava de ter engenho para realizar e que, ao mesmo tempo, de forma bem egoísta, não queria partilhar. Era meu. E era daqueles que não se empresta.  

A Leitura também se fazia com a Dona Amélia – a Madame Mimi, como lhe chamávamos – a telefonista a quem a profissão encaixava que nem uma luva. Falava pelos cotovelos. Ainda fala, mas já lá não está.  

Demorou a cimentar-se em mim, a Mimi. Hoje é muito o carinho que lhe tenho mas, ainda assim, não se desvaneceu de mim o terror pelos apaixonados monólogos a que, nos primeiros tempos, assisti de balcão e que, para ela, acredito, passaram por interessantes diálogos. Mas também se me entranhou, mau grado o ter estranhado. Como não gostar de uma mulher com um grande manancial de histórias para contar, cuja vida seguia a par com o da Livraria, que se enraizava nos primórdios da Livraria, que reconhecia a minha mãe ao telefone sem que ela precisasse de se identificar e que todos os dias ao pequeno almoço – que tomava no Ceuta – lia, de fio a pavio, a necrologia do Jornal de Notícias?  

Confidenciava-me o que, dizia, não sentia coragem de contar a mais ninguém e, por ela, com ela, o ser Mulher – com sangue, suor, mágoa e vitória – ganhou, também, uma nova dimensão. Foi o meu grande aliado na retaguarda quando a minha mãe ficou doente, protegendo-me no trabalho quando, não poucas vezes, me ausentei sem dia previsto de regresso. E foi tão bem sucedida na sua missão que a única admoestação que recebi por parte dos patrões foi: “se precisar de alguma coisa, diga”.

Havia o Santos e os almoços que raiavam a dor muscular à conta do rol de anedotas que ele lançava sobre a mesa. Havia o Silva e as suas fugas para o Brasil, de onde sempre voltava sem dinheiro e sem mulher. Havia a Dona Celeste e a eterna teoria da conspiração e discurso sindicalista no bolso. Havia o Senhor Eduardo que muito água me dava pela barba com as devoluções e a quem quase nunca conseguia demover da certeza de que, se um livro constava em stock é porque estava, nem que fosse carcomido pelas traças, numa das estantes. Havia a Margarida, a colega surda, que diziam que lia nos nossos lábios para ir contar aos patrões. Havia a Dona Manuela, que nunca entendi muito bem e que tratava das assinaturas das revistas. Havia a Lucinda, que ali se fez mãe. E havia a Dona Arlinda, da contabilidade, que, por pior que fosse a vida lá fora, sempre arranjou força onde já não a tinha para lançar a gargalhada final.  A Dona Arlinda que me arrancou de casa para ver o Festival de Folclore que tinha organizado e onde, para gáudio das minhas piores expectativas, levei uma dose – para a vida – de cantares do Minho. A mesma Dona Arlinda que me ligava lá de cima e que colocava o telefone perto do rádio para que eu escutasse, em primeira mão, o último hit da música pimba e que, sempre que os visito, me pergunta: “então, lá (onde estou agora), também é como era aqui?” 

Não, lá não é como era aí. Como podia ser? Há lugares que existem só no espaço em que estão e momentos, pessoas e sentires que não podem existir em mais sítio nenhum sob risco de se contaminarem e perderem a inocência. Às vezes há coisas que se podem reproduzir, ajustar a novas realidades mas, há lugares que não o são porque estamos lá sem estar. E aí, eu ainda fiquei depois de ter partido e é por isso que volto e torno a voltar.

Categories: do afecto

Sim,

March 5, 2008 · Leave a Comment

o que eu sei, o que me sossega, é que, ao acordares, o mundo se te oferece em vida e a vida te acontece no rasto de perfume com que as amendoeiras em flor impregnam o vento. E quando, no imprevisto dos dias e dos lugares, me calha sentir, nessa calma que sobra ao entardecer, a breve fragrância a giesta fresca e a restolho lavrado eu sei que estás aqui, acompanhando-me o olhar para lá das encostas irregulares da aldeia, para lá da rudeza das fragas e do xisto que maltrata a terra, para lá de tudo e para dentro de mim.

Sei-te feliz nestes instantes de Primavera e por isso, em mim, quase acontece a paz.

Categories: heart and soul

Getting started

March 5, 2008 · Leave a Comment

Desconstruir. Separar as peças, os capítulos, as palavras, as letras, o espaço vazio que delas, nelas, sobra. Reconstruir. Não ter medo. Revisitar as cenas, as emoções, o vazio, o grito, a mordaça, a terra, a noite. Não esquecer e esquecer tudo. Guardar o quase nada de cada ínfimo pormenor. Olhar. Não mais afastar o olhar. Nunca afastar o olhar. Construir.

Categories: alegoria da caverna