Há lugares que são para sempre e pessoas que, mais do que marcarem um tempo, deixam a sua marca em nós. Lugares a que nos unimos com delicado ponto de bainha e a que regressamos como se o ontem tivesse sido ainda agora. Não há muitos lugares assim em mim. São poucos. Mas neles, sou.
Não foram más todas as minhas experiências de trabalho anteriores e todas elas, a seu modo, me acrescentaram conteúdo mas, enriquecimento palpável e notório, crescimento e consciência de que tal acontecia, apenas aqui. Antes de ser Books and Living mas já no advento daquilo que não tornaria a ser. Reinventou-se e isso também não está mal.
Sabia alguma coisa de livros, sempre soube, mas o que sabia, ainda assim, era muito pouco. Quase nada. Mesmo nada. Tudo o resto, esse tudo e esse todo que me faltava aprender, compreender, sentir e viver haveria de me surgir no caminho, pejado de atalhos e lugares desconhecidos, das minhas conversas com o Sérgio. O mesmo Sérgio, para cujo feitio atravessado me tinham alertado e que, no fim, foi, de todos, o mais afável dos colegas e, neste mundo dos livros, o único professor a quem reconheço mérito e a quem faço as minhas vénias.
Foi com ele que aprendi a dar valor à mais obtusa e obscura editora, a dar valor ao mais improvável dos autores e a reconhecer – entender em toda a sua plenitude – que um livro pode carregar nele todo o peso da Humanidade. Que uma livraria pode encerrar nela toda a Humanidade e que esse gesto, aparentemente inócuo, da venda de um livro é bem mais do que uma transacção comercial. É conhecimento que muda de mãos, é descoberta que se possibilita, são vidas que se podem mudar. Assim, com toda a poesia que se lhe quiser juntar.
Não foi sob a sua batuta que orientei as minhas leituras noutras direcções, mas foi, sem dúvida, instigada pelas nossas conversas e pelas perguntas que sempre obtiveram resposta que me atrevi por outras letras. Continuo no princípio do muito que há para ler, entender e assimilar mas o “ser” que sou hoje não tem comparação com o “eu” A.L. Antes da Livraria. Aquela.
O Sérgio não era a única personagem da história. Para mim a Leitura era uma história. Um livro vivo que desfolhava diariamente, o filme que gostava de ter engenho para realizar e que, ao mesmo tempo, de forma bem egoísta, não queria partilhar. Era meu. E era daqueles que não se empresta.
A Leitura também se fazia com a Dona Amélia – a Madame Mimi, como lhe chamávamos – a telefonista a quem a profissão encaixava que nem uma luva. Falava pelos cotovelos. Ainda fala, mas já lá não está.
Demorou a cimentar-se em mim, a Mimi. Hoje é muito o carinho que lhe tenho mas, ainda assim, não se desvaneceu de mim o terror pelos apaixonados monólogos a que, nos primeiros tempos, assisti de balcão e que, para ela, acredito, passaram por interessantes diálogos. Mas também se me entranhou, mau grado o ter estranhado. Como não gostar de uma mulher com um grande manancial de histórias para contar, cuja vida seguia a par com o da Livraria, que se enraizava nos primórdios da Livraria, que reconhecia a minha mãe ao telefone sem que ela precisasse de se identificar e que todos os dias ao pequeno almoço – que tomava no Ceuta – lia, de fio a pavio, a necrologia do Jornal de Notícias?
Confidenciava-me o que, dizia, não sentia coragem de contar a mais ninguém e, por ela, com ela, o ser Mulher – com sangue, suor, mágoa e vitória – ganhou, também, uma nova dimensão. Foi o meu grande aliado na retaguarda quando a minha mãe ficou doente, protegendo-me no trabalho quando, não poucas vezes, me ausentei sem dia previsto de regresso. E foi tão bem sucedida na sua missão que a única admoestação que recebi por parte dos patrões foi: “se precisar de alguma coisa, diga”.
Havia o Santos e os almoços que raiavam a dor muscular à conta do rol de anedotas que ele lançava sobre a mesa. Havia o Silva e as suas fugas para o Brasil, de onde sempre voltava sem dinheiro e sem mulher. Havia a Dona Celeste e a eterna teoria da conspiração e discurso sindicalista no bolso. Havia o Senhor Eduardo que muito água me dava pela barba com as devoluções e a quem quase nunca conseguia demover da certeza de que, se um livro constava em stock é porque estava, nem que fosse carcomido pelas traças, numa das estantes. Havia a Margarida, a colega surda, que diziam que lia nos nossos lábios para ir contar aos patrões. Havia a Dona Manuela, que nunca entendi muito bem e que tratava das assinaturas das revistas. Havia a Lucinda, que ali se fez mãe. E havia a Dona Arlinda, da contabilidade, que, por pior que fosse a vida lá fora, sempre arranjou força onde já não a tinha para lançar a gargalhada final. A Dona Arlinda que me arrancou de casa para ver o Festival de Folclore que tinha organizado e onde, para gáudio das minhas piores expectativas, levei uma dose – para a vida – de cantares do Minho. A mesma Dona Arlinda que me ligava lá de cima e que colocava o telefone perto do rádio para que eu escutasse, em primeira mão, o último hit da música pimba e que, sempre que os visito, me pergunta: “então, lá (onde estou agora), também é como era aqui?”
Não, lá não é como era aí. Como podia ser? Há lugares que existem só no espaço em que estão e momentos, pessoas e sentires que não podem existir em mais sítio nenhum sob risco de se contaminarem e perderem a inocência. Às vezes há coisas que se podem reproduzir, ajustar a novas realidades mas, há lugares que não o são porque estamos lá sem estar. E aí, eu ainda fiquei depois de ter partido e é por isso que volto e torno a voltar.
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