As horas

February 20, 2009 · 2 Comments

Os minutos, os segundos e todo o tempo do mundo, imenso, que se estende entre o acordar e o dormir. Os meus gestos, ausentes, mecânicos, em rotina, perdidos. O meu olhar, procurando, insistindo, tentando ver. Há sol e há luz. Há ar. E som. E cor. Mas tão pouca substância. As palavras são gralhas, erros, falhas gramaticais que impedem a comunicação. Falam, entendo, mas já nada tem significado. Acuso o cansaço de milhares de horas em vão. Do vocabulário, articulado, resta a desarticulação; a meada sem fio, novelo, engelhado, atrito.

 

Horas e horas e minutos, segundos e todo o tempo do mundo, imenso, que se estende entre o acordar e o dormir. Já me mudei há muito tempo, já cá não estou. Existo nos reflexos, em superfícies espelhadas, na borda da sombra que se escapa nas esquinas, no rasto sem rasto do pó mudado de sítio. Já cá não estou. Há muito que me fui embora.

Categories: alegoria da caverna

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