Monthly Archives: December 2009

Water shows the hidden heart


Sweet december skies

Saudades do mar que só contigo é vida.

– Das coisas melhores que me aconteceram na vida foi ter nascido numa aldeia da Beira Baixa, e aí ter passado toda a minha infância. Como sou filho, neto e bisneto de camponeses, em casa havia apenas um só livro, uma Vida de Santos que ninguém lia, pois as poucas letras que alguns homens da família haviam aprendido tinham-nas esquecido quase todas. Meteram-me na escola aos seis anos de idade, aprendia facilmente, mas nunca li o tal alfarrábio, pois o meu mundo também não era o das letras, mas o dos pássaros e do vento, o das águas e dos amieiros. Essa era a “poesia” que me chegava, mas havia outra, ela vinha na voz de minha mãe, e nos seus intermináveis romances, cuja lembrança me aquece ainda. (…)

Eugénio de Andrade

Mirando o cimo da serra

Saudades até do caminho para ti.

A oposição

A cliente queria um livro para oferecer a uma criança, filho de um casal amigo. Fiz o périplo das novidades do infantil mas nada agradou à senhora. Ou tinha muito texto, ou tinha pouco texto, ou era em verso ou era em nada. Já com os nervos em franja, até porque tinha de ir jantar e a mulher nunca mais se decidia, tirei, por acaso, um livro do Manuel Alegre da prateleira. Pareceu-me um livro engraçado, abordava a questão da destruição do planeta e procurava sensibilizar a criançada para os cuidados a ter com ele. Sugeri-o, apresentando os meus argumentos. A senhora pegou nele, mirou-o de alto abaixo, desfolhou-o, apreciou as ilustrações e, quando eu achava que o assunto estava arrumado e que era aquele que, finalmente, ia levar, devolveu-mo dizendo:

- Não pode ser este. A criança pertence a uma família que é do PSD.