Ainda não sei se gosto do som destes senhores. Para já gosto desta música e, sobretudo, do tom poético-decadente do videoclip. Os Franz Ferdinand apareceram-me sob a forma de livro e acho que, quando o comprei, nada tinha ouvido sobre eles e nada tinha ouvido deles.
O livro também é atípico. Reúne uma colecção de crónicas gastronómicas escritas pelo vocalista da banda – Alex Kapranos – para o Guardian. A tourné mundial que efectuaram foi a toalha de mesa sobre a qual assimilou – e provou – a experiência para tal.
Comprei o livro porque isto de nos apaixonarmos por uma pessoa que tem jeito para a cozinha e em cuja companhia uma simples refeição é toda uma experiência de amor e partilha, acirrou a minha curiosidade para o que fica para além do prato sobre a mesa. E descobri um mundo novo. Feito de história, de emoções e paixão. De sonhos que se constroem e de experiências que se proporcionam. Às vezes nem é tanto o que se come mas o ambiente em redor da comida aquilo que mais importa e que, mais tarde, se recorda e recomenda. Tenho aprendido algumas coisas nesta minha saga pelo que os outros escrevem sobre a comida mas tenho, acima de tudo, aprendido a respeitar todo o trabalho que antecede o chegar do prato à mesa. Nunca tinha ligado muito a isso e agora é uma coisa que, sim, faz parte de mim. Eis o que o amor nos acrescenta. E isto é apenas uma pequena parte. [Beijo imenso para ti, amor].
Quanto às crónicas de Alex Kapranos… são engraçadas. Falam de sítios no mundo a que nunca fui e de comidas que nunca provei e de modos de viver que desconheço. Fala também de sonhos, os dele, e de como os desvios que teve de tomar e os atalhos por onde escorregou nunca o impediram de ver o “mais longe” e de, no fim, o terem tornado mais forte.
Aqui por casa acha-se muita piada a este rapaz. Tem uma carita de parvo mas sempre se vai aprendendo uma ou outra coisa com ele. Cozinhar é divertido – ver cozinhar ainda mais! – e existe, de facto, algo de unificador; quase como que uma cumplicidade mais que se cria, nesse acto simples, inerente à sobrevivência humana, que é o preparar dos alimentos e o sentar, com companhia, à mesa.
Procura-se na secção de frio do supermercado, escolhe-se a embalagem mais direita, paga-se e leva-se para casa.
Tira-se o preparado de dentro da caixa, coloca-se sobre papel vegetal, leva-se ao forno durante o tempo pré-determinado (ler instruções), retira-se, deixa-se arrefecer e come-se, sempre em boa companhia.
O mundo lá fora. O frio. A geada. O escuro que sobe pelas paredes do horizonte. Lá fora o ruído e as engrenagens do silêncio. Toda essa maquinaria pesada a acossar a alma. A prender o corpo. Lá fora a pressa. A velocidade. O trânsito. As horas. A verborreia. A ausência. O nada. Lá fora. O mundo.
Cá dentro a vida. Cá dentro. Por dentro das minhas veias. No âmago do meu oco. As minhas mãos quentes pelo quente das tuas. O muito que é. O pouco que basta. Aquilo que eu sei que tu sabes que eu sei que vamos fazer. E vamos. E eu, que me sinto de novo a pensar.
Demos um salto à Beira Baixa, com passagem pela minha Beira Alta. Bom tempo, cheiro bom dos montes e giestas, horizonte a perder de vista debruado pelos confortes da Serra da Estrela.
Boa companhia na garupa. A tua. Sempre. No matter what. Queijo Picante, Papas de Carolo e Bolo de Azeite da Tia Leta.
Depois o regresso. Um autocarro em versão Titanic. Chegar a casa. Recomeçar os dias. As horas. O desassossego. Mas tu. Ainda. Para quem regressar e por quem esperar.